Cardiologista defende visão mais humanística para ajudar os pacientes

Atualmente, médicos cardiologistas precisam lidar com diversos fatores de risco em pacientes, como hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, raiva, angústia, ansiedade, depressão e estresse. A cardiologia comportamental estuda essa associação entre as doenças cardiovasculares e as condições emocionais dos pacientes.

“Esse termo vem ganhando força. Há dez anos, foi publicado um trabalho importante em Nova Iorque e agora novamente ele aparece no European Heart Journal”, explica Cláudio Domênico, cardiologista do Hospital Pró-Cardíaco.

Para Domênico, a base da medicina comportamental é o foco no paciente, e não na doença. Ele relaciona esse conceito ao de “medicina da pessoa”, cunhado no Brasil pelo psiquiatra Danilo Perestrello, fundador da Divisão de Medicina Psicossomática no Serviço de Clínica Médica do Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, em 1958. “A medicina da pessoa destaca que cada indivíduo reage de uma maneira. Em nossos consultórios, atendemos pacientes que não conseguem largar o cigarro, emagrecer e parar de beber e que não tomam os remédios devidamente. Eles têm dificuldade em adotar hábitos saudáveis. Talvez o mais complexo não seja um transplante cardíaco ou colocar um stent bioabsorvível, mas conseguir mudar o comportamento deles”, explica.

Além de desencadear doenças cardiovasculares, as condições emocionais e psicossociais costumam prejudicar a aderência do paciente às recomendações do médico. Mudar comportamentos torna-se uma tarefa difícil por envolver ainda aspectos individuais, culturais e ambientais. Assim, conhecer a vida do paciente, seus hobbies, suas preocupações e seus objetivos pode ajudar o médico. “Os médicos precisam ter uma visão mais humanística. Não adianta pedir exames sem saber o que a pessoa tem vivido e prescrever metas impossíveis de alcançar”, argumenta Domênico.

O cardiologista afirma existir diversas estratégias para envolver os pacientes, citando o trabalho dos Alcoólicos Anônimos (A.A.) como exemplo bem-sucedido. “Nenhuma terapia suplantou, até hoje, o que é feito pelos A.A. Os 12 passos e a orientação dada, há mais 60 anos, têm taxa de cura superior a qualquer tratamento. Não há metodologia científica, mas nos encontros do A.A. há amor, compaixão, carinho e pessoas que doam seu tempo para ouvir o outro”, concluiu.

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