Ação conjunta de cardiologistas e oncologistas pode ser essencial para o futuro da medicina

Já há algum tempo o conceito de cardio-oncologia tem sido abordado em congressos e em artigos científicos, que investigam, em sua maioria, a ação cardiotóxica tanto da radioterapia quanto da quimioterapia. A integração entre cardiologistas e oncologistas é incentivada para evitar o desenvolvimento de insuficiência cardíaca e de outras doenças do coração, além de eventos tromboembólicos.

De acordo com o Dr. Carlos José Coelho de Andrade, médico do Serviço de Oncologia Clínica do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e membro do corpo clínico do Hospital Pró-Cardíaco, tal integração não precisa se limitar. “Penso que essas duas especialidades têm muito a trocar e a oferecer aos pacientes oncológicos e aos cardiopatas”, opina.

“Por exemplo, existe hoje uma discussão, na cardiologia, quanto ao uso da aspirina na prevenção primária de infarto agudo do miocárdio (IAM) e de acidente vascular cerebral (AVC). Também na oncologia, há um debate sobre o uso da aspirina como prevenção primária do câncer colorretal (CCR). No entanto, em ambas as especialidades, há o risco de sangramento gastrointestinal, pois este se eleva com o uso da aspirina. Os benefícios devem ser comparados aos riscos”, exemplificou, alegando que um olhar cardio-oncológico levaria em conta não apenas a redução do IAM e do AVC, mas também a diminuição de incidência do CCR.

Alguns pacientes necessitam de respostas rápidas sobre o uso da aspirina para esses casos. “Estudos em andamento procuram responder a essas perguntas, mas isso ainda levará algum tempo. Dessa forma, uma ferramenta que inclua os benefícios de redução de IAM e AVC, assim como os riscos de sangramento gastrointestinal, baseada na importância dada pelo paciente a esses eventos, pode ajudar muito no processo de decisão, que passa a ser compartilhado”, afirmou o Dr. Carlos José.  

Segundo ele, esses exemplos são recortes do universo da cardio-oncologia, que não foca tecnologias ou diagnósticos, mas, sim, o processo de decisão e a prevenção. “Coloca o paciente no centro do cuidado, considerando seus valores e preferências, e promove uma reflexão que agrega as duas especialidades na análise das suas intervenções”, concluiu o especialista.

Tal abordagem está presente no estudo “Benefit-harm Analysis and Charts for Individualized and Preference-sensitive Prevention: Example of Low Dose Aspirin for Primary Prevention of Cardiovascular Disease and Cancer”, publicado na revista BMC Medicine, em 2015, recomendada pelo médico.

 

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